segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Minha vida medíocre


Minha mania poética de grandeza em querer inspirar pessoas e fazer diferença no mundo regeu minha vida nos últimos anos. Mas essa maré passou.

Cada vez mais, a vida medíocre me atrai. Fazer uns bicos para pagar aluguel, comer simples e mais saudável, acordar com banho de mar, encher minha gata de cafuné.

O super-herói que existia em mim está pedindo férias. Lutei contra a ganância capitalista, contra os inúmeros preconceitos e contra injustiças. Exaurido da luta sem fim, saio do campo de batalha. 

Está na hora de ter uma vidinha banal, sem expectativas e cuidar delicadamente de mim.

Não consegui?


Às vezes me traio no próprio verbo quando digo que não consegui pedalar até o Alaska.

Depois de pedalar treze mil quilômetros, viver a morte da Alexia, um assalto a mão armada, enfrentar transamazônica, as carretas de uma Santarém-Cuiabá sem acostamento, um dos piores invernos na Cordilheira dos Andes e a solidão de todos que foram seguindo suas vidas. Foi inevitável. Mudei.

Não queria mais ver as luzes do norte. 
Queria sentir as luzes de dentro. Podem dizer o que quiser. Mas sinto que venci.

Viver meu sonho pela metade fez eu enxergar a minha vida por inteiro. Sou pura gratidão ao universo.

Acabou


Acabou minha vontade de desbravar o mundo e viajar de bicicleta.

Acabou a vida nômade de novidades e imprevistos.

Acabou meu sonho de ver a Aurora Boreal.

Boreal foi ter acreditado no sonho e ter pedalado ao lado de Luiz, Dayana, Ana Laura, Hairton, Varno, Liz, Jean, Cassi, Filipe, Fagner e Iaçanã.

Boreal foi conhecer e ser acolhido por Jara, Tânia, Nininha, Eveline, Lua Branca, Virgínia, Natasha e Ana Patrícia. Mulheres do meu coração.

Boreal foi ter visto de pertinho minha irmã Alexia partir desse mundo e ganhar asas de anja, daquelas que só contos de fada são capazes de alcançar.

Boreal é estar nos braços daqueles que me fazem sentir Sol da minha própria Aurora.

Gratidão por todos que participaram de alguma forma da minha jornada.

domingo, 18 de novembro de 2018

Ralando pra voltar


A vontade de cicloviajar acabou no Peru perto da fronteira do Equador, extremo oposto do nordeste brasileiro. Vivi, com intensidade, a desistência do sonho boreal que descrevo no primeiro capítulo do meu livro (baixe AQUI).

Sem condições financeiras de voltar de ônibus ou avião, me arrastei até a Amazônia. Desde lá venho lutando com o a solidão e falta de ânimo. Aceitei uma proposta de tentar viver longe da civilização mesquinha e preconceituosa. Mais um fiasco que relato no segundo capítulo (em andamento) descrevendo uma Amazônia que poucos conhecem. 

Para viajar duro e sem pedalar, conheci o Fabiano. O caminhoneiro, que por sorte não apoiou candidato fascista, me ofereceu uma pequena carona. A amizade cresceu e ele me fez uma proposta. Eu ajudaria a descarregar o caminhão nas entregas e ele me levava até Marabá, 240 km antes da divisa do Maranhão. 

Virei chapista, o cara que leva no ombro as cargas do caminhão para dentro do depósito. Nunca carreguei tanto peso. Os braços estão mole, as costas doendo, mas ainda está muito mais leve do que pedalar no calor amazônico sem vontade alguma.





sábado, 17 de novembro de 2018

Não é momento para união


Nas águas represadas do Xingu, desemboco sinceridades. 

Tenho sido criticado por compartilhar minha indignação de não saber quem apoiou o fascismo para desfazer amizades e dar unfollows. 

Quem me conhece bem mesmo, sabe que sigo meu coração. Ele diz para não interagir com pessoas que apoiaram candidato a favor da tortura, homofóbico, racista, machista, etc. 

Existe muita gente que foi bombardeada com campanhia anti-PT e não sabe nada sobre o candidato que apoiou? Existe! Mas vai junto no bolo. O presidente eleito já disse em entrevista que é normal inocentes morrerem em conflito, faz parte. Já o meu "gelo", esse não vai matar ninguém. Fiquem tranquilos. 

E também não vou me isolar. Mando esses 60 milhões para o espaço, mas sou abraçado por muita gente disposta a dar carinho aos sensíveis que estão devastados com a legitimação política do preconceito. Assim, vamos tentando curar feridas tão delicadas. Mas as cicatrizes já são certeza.

sábado, 10 de novembro de 2018

Sainda da mata


Vi o momento político do meu país através da televisão de garimpeiros, no meio da Amazônia. Meu coração não quer isolamento, nem solidão. Ele pede luta contra o fascismo e intervenção social. 

O Projeto Totipah sempre lutou pelas liberdades. Ser livre para exercer qualquer crença, ou nenhuma. Para amar qualquer sexo, qualquer gênero, para vestir qualquer roupa, para caminhar nas ruas de cabeça erguida sem medo e com orgulho de ser diferente e autêntico. 

Respeitar as diferenças e dar amparo social aos menos favorecidos é mais do que obrigação política. 

Para onde a aldeia nômade vai? De volta à região da resistência: Nordeste! 

Agradeço ao suporte de quem realmente entende a Missão Totipah! 

#FascismoJamais 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Fisgado pelo Pará


A oportunidade de construir a primeira Aldeia Totipah na maior floresta do mundo é um convite e um presente amazônico. Mas o coração fica pequenininho tão longe da minha família (de sangue e espiritual) que está na maior parte no meu nordeste. 

Mas desvendando o estado do Pará, vou me encantando pelo seu povo. Este foi o único estado fora do nordeste que #EleNao ganhou. 

Apesar de muitos latifundiários, garimpeiros e monocultores, aqui o povo ainda tem voz. A Amazônia sendo tomada pelas plantações de soja, pecuária e extração ilegal de madeira ainda respira tomando um longo fôlego para o segundo turno. 

O Pará é um dos estados em que mais se mata ecoativistas. Defendeu a floresta e as comunidades, já é ameaçado de morte. Muitas ameaças são executadas. 

Se a Transamazônica já tem sua história banhada pelo sangue, imagine o que acontecerá se os fazendeiros e suas armas ganharem as eleições. 

Pará, aos poucos você se revela e conta baixinho no meu ouvido o porquê de eu estar por aqui.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

É desespero


Observo milhões gastos em campanhas, para depois roubarem milhões que são retirado do bolso de milhões de brasileiros.

Vejo mentiras virtuais convencendo milhões, antes de serem desmentidas possivelmente por outras mentiras. A verdade é sempre hipotética e milhões são manipulados neste jogo de desinformações.

Milhões passam fome. Milhões sofrem violência. Milhões estão cansados. Milhões são ludibriados e estimulados a quererem posses que nem em milhões de anos economizando seriam capazes de comprar.

Não tenho força para lutar neste mundo. A coragem que uns veem em mim de tentar uma vida diferente, não passa de desespero e instinto de sobrevivência.

Cansei da sociedade dos milhões. O único milhão que quero é o da minha plantação orgânica longe da mídia, do dinheiro e das des-ilusões.

Marcelo Totipah

domingo, 30 de setembro de 2018

Não pedi sua opinião


Desde que assumi para o espelho a mentira de que ainda queria pedalar até o Alaska, recebi críticas fortes. 

"Você tirou dinheiro das pessoas dizendo que ia para o Alaska! Você não tem palavra". E isso veio de uma pessoa que me fez uma doação na estrada. 

Primeiro, confundiram convicção com obrigação. Convicções mudam e faz tempo que não me sinto obrigado a nada. Segundo, cheguei à conclusão de que receber doações das pessoas não compensava a intromissão na minha vida. Comecei a me sentir invadido. 

Na Amazônia, estou me curando e tomando rédeas de meus processos. Aprendi a dizer com convicção a dura frase de se escutar: eu não pedi sua opinião. 

Se um dia eu pedir teu conselho, sinta-se especial. Minhas crenças sócio-espirituais são tão diferentes das "normais e comuns" que poucos conseguem se colocar no meu lugar e opinar algo que não me ofenda, prenda ou machuque meu coração. 

Já pensei (e penso) várias vezes em apagar o nome Totipah de todas as redes sociais. Mas recebo tantas mensagens lindas e fortes de pessoas que foram profundamente tocadas por uma história ou um canto que me mantenho aqui. Ao menos, por enquanto.

sábado, 29 de setembro de 2018

Posso mudar?


Sou muito bom em "dizer agora o oposto do que disse antes". Até eu que milito tão fortemente sobre o direito de mudar, me pego preso nas próprias palavras. Depois de dias de silêncio e reanálise, caguei para o que pensam. Vida é minha, não é verdade? 

A ordem não existe. Eu quero é caos, anarquia e mudança. Pois o mundo flui, roda e sapateia. Não cometam o mesmo erro que eu e a minha falsa liberdade vivemos. Deixe o verbo mudar! 

Eu vou, eu fico. Eu sabia, mas já num sei de mais nada. Liberte-se da própria palavra e promessa. 

Fui sempre hetero, mas achei um amor gay. Era católico, mas a macumba me chamou. Era empresário bem de vida, mas agora sou hippie estradeiro... 

Como digo para meus amigos: quero nunca até querer de novo e quero sempre até não querer mais. 

Acredito que existem muitas e muitas vidas. Mas a consciência de cada vida é única e aproveitar para experimentar é quase obrigação cármica. 

Divulguei por três anos que ia até o Alaska e desisti no meio do caminho. Que seja. Sei que não sou mais o exemplo de foco e persistência. Mas ser exemplo também cansa. O que não cansa é viver de braços abertos cada mudança do meu coração.