sábado, 14 de julho de 2018


Para manter a Jornada Alaska, nunca trabalhei tanto na minha vida. É o dia inteiro pedalando, calculando rota, fotografando, filmando. Boa parte da noite passo escrevendo, editando foto, buscando parcerias e fazendo webmarketing.

Faço meu trabalho contra discriminação e preconceito nas estradas e nas redes sociais. Sei que é um trabalho de formiguinha, mas pelas mensagens que recebo, o Projeto Totipah já fez diferença na vida de muita gente.

Tenho a felicidade de não ter horário e nem chefe. Meu tempo é a minha própria vida e quem paga pelas despesas na estrada, acredite ou não, quase sempre é povo brasileiro através de doações. Posso dizer que o meu povo é o grande patrocinador desta viagem.

Preenche a minha alma partilhar minha escrita, fotos e descobertas gratuitamente para o Brasil e mundo e receber doações como presente de quem foi tocado pela nossa história. Não coloco um preço no meu trabalho, nem diferencio que tem ou não tem dinheiro para acessá-lo.

É verdade que não ficarei rico, nem acumularei bens. Tudo que sonho é continuar viajando e partilhar mais culturas, paisagens, estimular reflexões, quebrar arquétipos e inspirar mudanças de vida.

Este é o meu trabalho. 

Se fosse fácil, qualquer um faria.
Se não fosse sincero, não ecoaria.
Se fosse vagabundagem, não despertaria tanta admiração.

Talvez, pedalar até o Alaska seja muito para quem tenta viver de um trabalho voluntário que se apoia em doações. Mas chegar até aqui já é uma vitória para não esquecer.

Muito obrigado, Brasil.




Três fatos que muitos não sabem


A principal motivação da Jornada Alaska é acumular força e conhecimeto para retornar ao Brasil e fundar um Aldeia para pessoas que querem viver sem utilizar dinheiro. É possível. Basta viver em meio a natureza, em terra produtiva e longe de cidades. Tribos viveram assim por milênios. É apenas uma questão de escolha e consciência. O Projeto Totipah acredita que todos deveriam poder decidir viver com ou sem dinheiro, de acordo com os sonhos e aspirações de cada um. Chamamos isso de liberdade.

Há quatro anos, estava tão enojado com a minha dependência do dinheiro que decidi viajar com o voto de não tocar em nenhuma moeda sequer. Pedalei dez mil quilômetros de Brasil sem um centavo. Foi incrível. No meu país é tanto carinho, acolhimento e caridade que só preciso me ocupar em dar o meu melhor para as pessoas. Compartilho histórias, música, conhecimento e esperança em casas, comunidades e esquinas pelas quais eu passo. Já tenho muitas saudades do meu povo.

Há um pouco mais de um ano, Alexia, que pedalava ao meu lado, morreu depois de um acidente causado por uma moto imprudente. Cantei no pé do caixão da minha irmã de estrada e passei pelos momentos mais difíceis dessa minha existência. A vida é frágil e pode acabar em qualquer momento. Não temos controle nenhum sobre ela. Hoje, me assusta mais perceber que não levo uma vida feliz do que encarar a minha própria morte.

Por que contei tudo isso? Para ficar mais do que claro que o #ProjetoTotipah não é apenas sobre bicicleta e uma grande jornada pelas Américas. Ele vai além. É uma ação social-poética que estimula o questionamento do que nós representamos para a sociedade e o que a sociedade significa para cada um de nós.

sábado, 7 de julho de 2018

Por que as Montanhas nos acabam


Tem um lado da cicloviagem que não vemos ninguém contando. As fotos lindas de estradas entre montanhas com picos nevados escondem tudo que suportamos para estar aqui.

Nem falo do frio, das dores de cabeça, da falta de ar, tontura, das pontadas no peito perto do coração, do vento gelado (e muitas vezes contra) ou subidas gigantescas pedalando bicicletas pesadas, nevascas e noites congelantes acampando. Já aprendemos a lidar com isso tudo.

Os por menores que têm nos enfraquecido. Em regiões e épocas muitos frias não há o costume de tomar banho com frequência. É bem raro encontrarmos chuveiro. E, quando acontece a água é tão gelada que uma rápida lavadinha nas mãos deixa os dedos com dores incríveis queimando de dentro para fora.

Por consequência, ficamos 4, 5, 6 dias sem tomar banho. É verdade que não transpiramos, nem fedemos pedalando na altitude, mas é bem sofrido. A cabeça coça cheia de caspa, o tênis invadido pelo chulé, algumas partes vão ficando ensebadas pedindo por água fresca.

Fazemos o que podemos com lenços umidecidos, talco, desodorante, mas as roupas vão ficando sujas, a pele oleosa e você dorme pesado. Com o passar dos dias, chega a ser desesperador.

Estamos loucos para sair das montanhas. Novecentos quilômetros separam Cusco do Oceano Pacífico, nos quais 800 são ainda de pura montanha. Nesta rota, chegaremos no ponto mais alto dessa viagem: 4.600 metros acima do mar.

Sim, estamos pedalando por um sonho. Mas não conheço ninguém que alcançou seu sonho sem batalhar, sem sofrer, sem ralar muito. 

Afinal, são os obstáculos que vencemos que fazem tão precioso o momento que alcançamos o sonho tão esperado.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Unidos pela Bike


Esta é a maior viagem da minha vida e sinto que a última fora do Brasil. Estou construindo meu sonho de ser um velho cheio de histórias para contar. 



Desde que entramos na rota para La Paz, temos encontrados muito cicloviajantes. Um total de quatros argentinos, três mexicanos, três franceses, quatro italianos, uma colombiana, uma russa, um uruguaio e um tailândes. Desses, cinco mulheres, casais, famílias, solitárias e solitários. 


Quando um cicloviajante deixa sua casa e se joga em terras estrangeiras, ele se torna um acumulador cultural. 

A realidade daquele que vive como cigano, vulnerável em cima de duas rodas, muda completamente ao mesmo tempo que se transforma tudo o que há dentro. 

Esta semana, viajamos com um casal de franceses super gente fina e uma argentino animadíssimo cheio de piadinhas. A troca cultural foi incrível. Em algumas histórias, saltávamos do nosso vizinho argentino para a realidade da França e o velho mundo. 

Quando aposentar das cicloviagens, será porque consegui fundar a #AldeiaTotipah. 

Sonho poder acolher cicloviajantes de todo o mundo e pedalar nas histórias daqueles que passam, sem sair do lado do meu fogão à lenha feito de barro ou da fogueira encantada cheia de canções. 

Marcelo Totipah

domingo, 1 de julho de 2018

Cicloviajantes procurando trabalho?


Primeiro, agradecer a tanta gente que se preocupou com o momento delicado que passamos nas montanhas do Peru. 

Palavras de incentivo, dicas, conselhos e doações nos ajudaram a mudar a situação. Estamos investindo em alimentação mais saudável e comprando água mineral (antes bebíamos da torneira). 

A sugestão de parar a cicloviagem e trabalhar para melhorar nossas condições é muito válida. Mas, existem alguns fatores a se considerar. 

Boas oportunidades: Imagine pagar hospedagem, alimentação de três bocas (nós dois e a gata) e ainda tentar juntar dinheiro trabalhando em um país que não é o seu. Até agora, não encontramos oportunidades que compensassem parar, pois isso impacta no próximo tópico. 

Tempo de permanência: Quando você entra em um país, ganha um número de dias para ficar legalmente. Acreditamos que qualquer irregularidade nos nossos passaportes já nos desqualificará na hora de tirarmos o visto americano que ainda não temos. Ainda faltam 2.600 km de Peru para pedalar. Parar tão longe da fronteira pode deixar a gente na corrida contra o tempo e isso acabaria com o espírito da viagem. 

Resumindo, se a verba do projeto zerar e as doações não forem o suficiente para nos fazer chegar direto ao Alaska, pararemos de viajar e buscaremos um trampo. Mas temos que escolher bem. 

Um lugar confortável, sem custo com hospedagem (ou custo baixo), próximo a fronteira com outro país, trabalhar com prazer e não por um tempo muito grande. Perder ritmo, condicionamento físico e motivação são riscos que não queremos correr. 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Apenas sobrevivendo


O projeto dos meus sonhos parece ser também a viagem dos sonhos de muita gente. O que poucos sabem (e percebem) é que estar fora do seu país com pouco recurso financeiro pode ser extremamente sofrido.

Bolívia e Peru, colonizados pela Espanha, são em sua maior parte seguidores de Jesus. Falam da Bíblia, do único salvador, tentam me evangelizar na estrada, mas esquecem o principal ensinamento crístico: A partilha.

Recebemos dicas de lugares incríveis para conhecer, mas as pessoas não compreendem que vivemos com o mínimo, tentando apenas manter uma alimentação razoável e seguir com saúde até a Aurora Boreal.

Mesmo com esse foco, minha saúde não está boa há algum tempo. Dores no estômago, falta de apetite e incessantes diarréias já me levaram mais de 12 quilos.

Como não temos como gastar um centavo com hospedagem, acampamos nos lugares mais seguros e protegidos do frio que encontramos. Mas estamos a mais de um mês entre 3 e 4 mil metros de altitude, com ventos gelados invadindo a barraca na madrugada. 

Acampar em graus negativos não está me ajudando a recuperar minha força.

Sei que tenho que sair das montanhas o mais rápido possível, mas ainda faltam centenas e centenas de quilômetros até encontrar o Pacífico.

A "viagem dos sonhos" pode se tornar uma provação. É isso mesmo que quero? Tudo está valendo a pena? Estou ignorando os meus limites?

O inverno mais frio da minha vida tem sido de inquietações e avaliações das escolhas que fiz.

Isso tudo para dizer que não é fácil e não é tão lindo quanto parece.

Perceber que em alguns dias vamos passar rápido por Cusco (cidade cara e turística) sem ter condições nenhuma de conhecer Machu Picchu é a dureza da estrada esfregando na minha cara que não estou passeando ou turistando.

Estou lutando com todas as ferramentas e dons que tenho; guiado pela visão da criança que caminha na neve embaixo de luzes verdes que bailam sonhos.


Não sou atleta duro na queda, muito menos o cara tão forte e determinado que demonstro. Sou um poeta frágil. Um contador de histórias que nasceu fora de seu tempo, buscando apenas sobreviver em estradas desertas.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Névoa Clandestina e os Andarilhos


Saindo de La Paz, pedimos ajuda. Estávamos preocupados com a fiscalização da fronteira com o Peru, já que viajamos com uma gata. 

Muitos veterinários quiseram nos ajudar, mas o que pegou foi uma taxa que teríamos que pagar para um órgão do governo boliviano. Estava muito além do nosso alcance. 

Decidimos arriscar passar com Névoa escondida. Acredita que ninguém nem olhou nossas bikes? 

Assim como na fronteira de Corumbá com a Bolívia, os fiscais nem levantavaram da cadeira. Falamos que estávamos viajando de bicicleta e ganhamos 90 dias de permanência. 

Acredito que vamos arriscar passar com a Névoa ilegal até o México. Nos Estados Unidos temos a informação de que a coisa é bem mais complicada. Tanto para ela, quanto para nós. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Primeiros quilômetros peruanos


Deixamos a Bolívia e entramos o Peru beirando o incrível Lago Titicaca. Ele é tão grande que quase matou a minha saudade de mar, mas a energia é bem diferente.

Quase quatro mil metros de altitude, vento gelado e horizonte de picos nevados, nem de longe parecem as praias "calientes" do meu nordeste.

A fronteira é meramente diplomática, mas as impressões já mudaram.

Os peruanos são muito sorridentes e adoram nos cumprimentar na beira da estrada. A parte ruim é que também adoram soltar a buzina dos carros sem dó no nosso ouvido. Parece cultutal, mas é uma barulheira que vou te contar.







terça-feira, 19 de junho de 2018

Dez Objetivos Totipah


1 - Mostrar para as pessoas que não existe sonho impossível.

2 - Compartilhar a mensagem de viver sem medo.

3 - Disseminar mensagens de amor e respeito, trabalhando contra os preconceitos religioso, social, racial, LGBT e questões de identidade de gênero.

4 - Intercambiar culturas pelas Américas compartilhando histórias, fotos e vídeos pelas redes sociais para que ampliem consciência de mundo através do aprendizado das diferenças.

5 - Fazer um estudo etnográfico dos países americanos com o fim de entender parte dos dilemas sócio-culturais, políticos e educacionais para ampliar a capacidade crítico-argumentativa para possíveis soluções futuras para nossa sociedade.

6 - Impulsionar o imaginário de crianças e jovens para que voltem a sonhar e batalhem por seus sonhos.

7 - Pedalar até a Aurora Boreal (Alaska, USA), marco simbólico e poético de que alcançamos nosso objetivo físico.

8 - Retornar ao Brasil e fundar uma Aldeia alternativa, onde vamos acolher pessoas de todo o mundo para partilhar valores de comunidade, conhecimentos adquiridos na estrada, idiomas, poesia, filosofia, nos readaptando a uma dinâmica socia tribal em que não usaremos mais dinheiro, plástico, nem energia elétrica.

9 - Aproveitar a cicloviagem para aprender ferramentas e dispositivos, maturando ideais e metas para conseguir fundar a Aldeia Totipah, conectando pessoas com interesses comuns prontas para viverem, no hoje, a "Nova Era" que se espera no amanhã.

10 - Ser feliz.

Do Brasil a La Paz

(1.600 km pedaldos)

Cruzar  o país boliviano foi um dos maiores desafios do Projeto Totipah. Além de neblinas glaciais, nevascas em estrada de barro, muitas montanhas e ventos contra que mais pareciam freios, tivemos como grande dificuldade a cultura muito diferente da que conhecemos no Brasil.

O boliviano é um grande comerciante por natureza. Juntando as condições difíceis de vida, tivemos pouquíssima ajuda na estrada. Muito diferente das tantas viagens pelo Brasil em que ganhávamos tantos pratos de comida e ajuda com peças de bike das lojas. O brasileiro admira os cicloviajantes e é naturalmente caridoso quando vê uma bicicleta cheia de peso.

Saímos do Corumbá (MS) com aproximadamente 170 reais no bolso. Era tudo o que tínhamos. Graças as todas doações que vieram através da nossa conta e as três famílias bolivianas que nos acolheram com muito amor em Santa Cruz, Cochabamba e La paz, estamos fortes e preparados para entrar no Peru daqui pouco mais de 100 km.

É verdade que nesse trecho perdi 10 kg, mas era a reserva extra de gordura que fiz no Mato Grosso do Sul, me acabando de comer na casas de tios, tias e primos. Minha experiência já dizia que as montanhas me custariam uns bons quilos. E, assim foi.

DADOS DA CICLOVIAGEM:

Gasto Total: R$ 1.160
Duração: 40 dias
Dias Pedalados: 29 
Dias Descansados: 11
Média de km/dia: 55 km
Trajetos em ônibus: 0
Caronas: 0
Trajeto pedalado: 1.600 km

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Gratidão pelo apoio, carinho e incentivo de todos!